
No dia do meu julgamento final estarão Deus e o Capeta brigando por minha alma. E eu debandarei, claro, para o lado que me for mais conveniente. E, por favor, não me rezem missas de sétimo dia. Tampouco façam santinhos com mensagens sentimentais e minha foto. Nunca gostei de fotos e não é evocando recordações terrenas que pretendo prosperar na eternidade que, para mim, tem um significado bem particular. Sempre acreditei que cada alma aguarda em seu lugar merecido até que todos que tiveram uma vida ligada àquela deem o último suspiro também. Aí começa tudo de novo. Mas isso não demora muito, no máximo uns cem anos. Tempo que na vida eterna, penso eu, deve passar como num piscar de olhos.
Não acredito que o inferno é ruim como pintam. Nem que o céu é aquela maravilha. O Diabo que me livre de ficar ouvindo querubins cantando e tocando harpas o dia todo. E Deus que me salve de arder em chamas que não se apagam nunca. Estou em dúvida. Entretanto, qualquer um dos dois destinos me satisfaz. Só não aceito o purgatório. Odeio lugares mornos!
Em sonho, já tive o Ardiloso como parceiro de truco. A partida acontecia sobre uma mesa dessas de boteco, bem barulhenta, que estava forrada com uma toalha velha de banho, e era um domingo de sol. Há poucos metros, umas ninfetas eufóricas divertiam-se fazendo topless na piscina. Fumávamos muito e bebíamos cerveja barata, mas gelada. Meus melhores amigos estavam lá e os mais bêbados começaram a batucar sambas nas cadeiras. Não lembro do resto. Quando acordei estava com um hálito literalmente desgraçado.
Já sonhei com O Rei dos Reis também. Num dia fresco de outono conversávamos, sentados na grama de um festival que se assemelhava a Woodstock, a contar pelas vestimentas, mas de música gospel. Ele trajava uma bata branca, calça marrom boca de sino e chinelos de palha. Os únicos acessórios eram duas pulseiras com dizeres, dessas que qualquer hippie sabe fazer. Na direita, a palavra AMOR. Na esquerda, PAZ. Curioso, sobretudo com o adorno, perguntei se a ordem das pulseiras não estaria trocada. E, com a firmeza e a serenidade celestiais, ele explicou que a paz é pura consequência do amor.
- Mas o amor às vezes é perturbador, repliquei.
- A paixão é perturbadora. E você sabe disso. Assim como conhece todas as outras respostas às perguntas que planejou me fazer, concluiu com um sorriso terno.
Instigado, despertei com o frio das três horas da manhã.
Ana Angélica - Quebrando o Aquário
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